São 15:35 de uma quinta-feira qualquer. Até ano passado, em uma quinta-feira dessas, eu estaria pensando "não vejo a hora de chegar dezembro e terminar o colégio, terminarem as provas, terminar a tortura nesse lugar cheio de hipócritas ridículos" ou até mesmo "nossa, amanhã tem prova. ah, mais tarde eu estudo." Hoje é diferente. Hoje já terminou. Amanhã não tem prova e eu não sou submetida a uma tortura num lugar com pessoas ridículas. Hoje eu posso até respirar. Naquela época não podia. Naquela época não se podia fazer nada, não podia chegar depois das 08:30 se não estivesse acompanhado dos pais, hoje eu cheguei as 08:40 e entrei sem precisar dar satisfação pra ninguém; não podia ficar fora da aula, não podia dormir, não podia ficar com celular, mas hoje eu saí da sala pra ir dormir no bar, usei o celular durante a aula e se eu saio da sala o problema é meu.
Onde eu quero chegar é que as pessoas passam tantos anos contando os dias pra isso tudo acabar, pra liberdade chegar mas quando chega, não é como pensamos. E realmente não é. Me dá uma dor em algum lugar só de pensar que não existe mais passeio de colégio. Não existe mais museu da puc, quinta da estância, jardim botânico e festival de cinema com o mesmo sentimento. Não existe mais lanche coletivo toda quarta-feira. Não existe mais enroladinho de salsicha todo recreio e muito menos os comentários do tio do bar. Não existe mais a adrenalina a cada matada de aula e também hoje ninguém vai se importar se eu não levar a gramática.
O tempo passa, nós crescemos e deixamos todas essas coisas pra trás. Dói, dói muito. Dói muito esperar tanto pela liberdade e quando a temos, sentimos falta de todo o passado.
Hoje eu olhei pro tênis que eu tô usando, meu all star branco. Ganhei ele no meu aniversário de 2007 e ainda uso. É muito estranho olhar pra uma coisa que me acompanhou por tanto tempo, por metade da oitava série e todo o ensino médio. Parece idiota, mas tudo é muito nostálgico, inclusive o tênis, que é o meu mais antigo e o que eu mais usei nesse tempo todo. Que esteve comigo em provas, dias de sol, tempestades, matanças de aula, encrencas, dias de boletim pra receber um 'aprovado', enfim, sei lá, que simplesmente me acompanhou por muito tempo. Às vezes eu penso: será que não é melhor eu praticar o desapego? Deixar certas coisas de lado, como o tênis, e começar a VIVER essas coisas novas? Tô muito apegada ao passado. Não consigo seguir em frente. Não consigo aceitar que o futuro já tá aqui, que agora é cursinho, vestibular, faculdade, casamento, filhos e trabalho.
E meus amigos? Ok, posso contar nos dedos os que sei que vou continuar falando até porque ainda falo com esses importantes, mas nunca mais vamos trocar olhares durante uma aula chata ou compartilhar momentos como "nossa, acabei de ficar com ele no corredor", entende? Vamos viver muita coisa ainda, mas tudo muito diferente do que já vivemos. Tu vai me dizer que isso é normal e eu vou ser obrigada a concordar, porque disso eu sei. Só o que tô querendo dizer é que tudo isso dói muito e que eu realmente preciso praticar esse desapego, me desprender do passado, tirar o pensamento de "eu poderia ter aproveitado mais o meu terceiro ano" da cabeça e VIVER INTENSAMENTE isso que tá me sendo proposto agora e todo o resto que está por vir.
Na teoria parece fácil, mas aí começa a tocar Innocence e depois Carbona no mp4 e aí eu quero ver colocar tudo isso em prática.
Não é fácil, viu.
Agora a minha meta é tentar seguir em frente e pensar que sim, que eu aproveitei ao máximo, que ainda tenho os mesmos amigos mas só estamos vivendo situações diferentes e que momentos melhores virão, tanto dentro de alguma instituição de ensino, como em casa, como na rua, como nas jantas com os amigos ou numa caminhada com algum tênis velho. Hoje eu sinto saudade do ontem. Amanhã a saudade vai ser do hoje. Preciso parar de me lamentar por esse ontem e aproveitar o hoje antes que ele se torne o ontem e eu tenha certeza que não aproveitei porque fiquei aqui, me lamentando.
Talvez tenha ficado tudo muito confuso, eu não espero que ninguém me entenda, não sei também se alguém entra aqui, mas é um desabafo de mim pra mim mesma que eu precisava fazer.
Há 13 anos
